Após a
narrativa do anúncio das bem-aventuranças por Jesus, Mateus reúne uma
grande coleção de sentenças de estilo sapiencial, associadas a Jesus.
Ele reuniu, de modo didático, para doutrinação, ditos e sentenças
esparsas, originários de palavras de Jesus, que circulavam livremente
como tradição entre os cristãos. Vários destes ditos e sentenças
aparecem dispersos ao longo dos outros evangelhos sinóticos, Marcos e
Lucas. O conjunto forma o que se costuma denominar "o Sermão da
Montanha". Mateus redige sua obra em um momento em que o judaísmo, após a
destruição do Templo de Jerusalém no ano 70, busca sua identidade na
estrita e rigorosa observância da Lei. Sob esta decisão de estrita
observância, os fariseus expulsaram das sinagogas os judeus convertidos
ao cristianismo que, embota ameaçados, perseveraram em sua fé cristã.
Com a coletânea de sentenças do Sermão da Montanha, Mateus procura
identificar, para suas comunidades oriundas do judaísmo, as
características do Reino dos Céus, diferenciando-as dos estreitos
critérios de identidade exigidos pelos fariseus. Daí vem a freqüente
repetição da expressão: "...foi dito aos antigos... Eu porém vos
digo...", ao longo do Sermão. O texto de Mateus adquire o caráter de um
discurso programático interpretando o projeto de Jesus, apresentando-o
como aquele que responde às autênticas esperanças suscitadas pela fé
fundada no Primeiro Testamento. No texto de hoje, de início, temos as
duas sentenças proclamatórias que identificam o compromisso dos
discípulos: "Vós sois o sal da terra... vós sois a luz do mundo...". Sal
e luz, duas realidades perenes do dia a dia, adotadas por metáfora,
também pelos profetas. Porém, na Bíblia, esta é a única passagem em que o
sal é usado em uma metáfora aplicada a pessoas. Ao sal associa-se a
propriedade de preservação da corrupção que proporciona a durabilidade. É
antiga a prática de salgar alimentos para garantir sua durabilidade.
Assim o faziam, certamente, os pescadores da Galiléia. Além do mais, é o
sal que dá o sabor aos alimentos, proporcionando mais prazer no seu
consumo. A "aliança no sal" é também uma expressão que indica a
fidelidade a um compromisso. É partilhar com outrem, pouco a pouco, o
sal do alimento de cada dia, ao longo de longos dias. Os discípulos são
chamados ao compromisso da fidelidade ao projeto de Deus, pelo que a
alegria brota nos corações. A luz é o admirável fenômeno físico que nos
revela a natureza das coisas materiais. No âmbito das realidades
espirituais a luz identifica-se com a verdade. É pela verdade que
alcançamos a realidade dos fatos e da vida, os quais são ocultados pela
falsidade e pela mentira. Se a palavra do discípulo deve ser agradável
ela também não deixará de ser uma luz que revela a vontade de Deus
denunciando a falácia dos valores e das ofertas de um mercado
globalizado a serviço do dinheiro e do lucro. A alegria e a verdade são
manifestações do amor que une os discípulos em comunidades e que
irradiam transformando o mundo. Na humildade e na confiança em Deus
(primeira leitura), os discípulos são chamados a serem a luz que ilumina
os caminhos e revela a verdade de Jesus.
Ser o sal da terra e a luz do mundo é comprometer-se com o Reino dos Céus encarnado na história, no dia a dia. É partilhar com quem tem fome, acolher os pobres, vestir os nus. É praticar a justiça e a paz que demovem os poderosos injustos e violentos. "Assim, qual novo amanhecer,... tua luz brilhará nas trevas".
Ser o sal da terra e a luz do mundo é comprometer-se com o Reino dos Céus encarnado na história, no dia a dia. É partilhar com quem tem fome, acolher os pobres, vestir os nus. É praticar a justiça e a paz que demovem os poderosos injustos e violentos. "Assim, qual novo amanhecer,... tua luz brilhará nas trevas".
Autor: José Raimundo Oliva

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